"Dai-me a liberdade do meu coração que eu vos dou a minha completa emoção" Betimartins

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As palavras fluindo do meu coração.

Mahatma Gandhi "Dai-me um povo que acredita no amor e vereis a felicidade sobre a terra."
Meu Diário
04/03/2011 13h49
Recordações de uma menina. Parte dois

Recordações de uma menina.

 

 

Parte – 2

 

Era dia de Natal que se tornou sombrio, afinal não existia Pai Natal e pensava para mim, que mais eles me enganam com todas estas tretas e mentiras. Bem pouco mais lembro a não ser que a vontade de chorar era muita e também a revolta, era melhor ficar no mundo do sonho e magia.

Comecei a ficar atenta a tudo que se passava e observar com mais exatidão todas as formas do rosto de que falava comigo, pois não queria ser enganada de novo. Com isso passei a ser a pessoa que mais estava alerta e sabia de todo na casa.

Aprendi muita coisa, observando as reações daqueles que falavam comigo, era como se conhecesse sua alma através do olhar. Tinha café, aprendi cedo as artimanhas da vida e as desgraças daqueles que estouravam ordenados que, deviam ser para alimentar a família e eram gastos em jogo e bebida. Tinha um senhor que era completamente deformado, tinha as pernas encolhidas e se arrastava pelo chão quando maldosamente retiravam os seus banquinhos feitos para ele andar. A única deformação era no físico, era um bom senhor, uma alma sofrida, mas cheia de caridade e aceitação, ainda lembro seus olhos grandes e castanhos que sempre a todos cumprimentava gentilmente. Era o Tomas, era alegre e sempre bem disposto, tirando quando pagavam uns copos de vinho tinto, para esquecer a vida. Um dia alguns jovens da aldeia que queriam se divertir a custa do Tomas, sumiram com os seus dois bancos, aqueles que muitas vezes eu em pequena gostava de sentar, até que ele fez um pequeno banco para mim.

Fiquei tão triste ver aquele ser arrastando pelo chão, que era composto de paralelos e ainda por cima cheio de areias grossas, queria ir para casa depois de sentir humilhado e ferido na sua alma pela malvadeza dos jovens, mas ninguém fez nada só riam e nada mais. Foi assim que aprendi a conhecer mais uma condição da vida, a maldade dos homens.

Mais uma condição que não conseguia entender, mentira e a maldade, claro que isso era só inicio de muitas descobertas menos agradáveis, mas claro que existiram outras bem agradáveis para mim.

As descobertas são muitas, mesmo muitas, mas recordo uma que foi muito agradável, uma que jamais esqueci, a minha visita aos meus pais. Meu padrinho, triste claro, pois ele gostava que eu ficasse em casa, levou para passar uns dias com meus pais e irmãos. Sempre que chegava era uma alegria, todo era novo, mas minha mãe queria que eu fizesse a minha primeira comunhão, pois desisti de fazê-la na minha aldeia.

Desisti, pois o padre da aldeia era muito severo com as meninas e gostava de dar com as canas na cabeça, além disso, ninguém podia ir de manga curta e eu já era rebelde. Era verão e estava muito calor e tinha que caminhar cerca de um 1,5 km para chegar ao mosteiro, com roupa de manga comprida, sempre suava e ficava mal disposta. Se outra menina poderia ir de manga curta porque não também eu. Claro que a outra menina era filha do rico mais rico da aldeia.

Claro que enfrentei o padre quando ele mandou com a cana em cima da minha cabeça, zangada puxei a cana e a parti em frente do mesmo. Foi algazarra total e a minha independência, pois não gostava de injustiças, claro que ele veio pedir que eu voltasse à igreja e que podia ir de manga curta, mas eu não quis, apenas falei quando todas as meninas puderem ir como eu, eu volto.

Meus pais souberam e não aprovaram é claro nem a minha rebeldia e muito menos a extravagância do padre e claro que minha irmã mais velha ia fazer a segunda comunhão eu fui fazer a minha primeira comunhão. A Catequese, essa foi às pressas e claro que tive que ir alguns dias, para aquele belíssimo mosteiro de frades, quase todo ele em ruínas, mas ainda conservando a igreja de uma forma imponente, que nem os abalos, nem as tempestades tocaram numa só pedra, o resto que sobrou, ardeu e o que não ardeu, foi roubado pelos estrangeiros.
Claro que Portugal não dava o devido valor as suas obras de arte, estávamos na ditadura, Salazar achava isso uma perda de tempo, era propriedade da igreja não do país. Alias era normal não ligar a nossa história, apenas o trivial nada mais.

Claro que aqueles dias de férias estavam a custar passar, era a casa dos meus pais e dos meus irmãos e no meu pensamento, não era a minha casa, mas sim uma casa estranha. A minha consolação é que a companhia de meus irmãos sempre aliviava pelas asneiras e liberdade que via neles. Ainda recordo e ainda solto uma bela gargalhada, lembrando dos meus irmãos, quatro e seus amigos, pegarem em um latão de cola de sapato, riscarem e atirarem para dentro do latão, bem a explosão foi inevitável, tendo um dos meus irmãos mais novo saído da beira de lata como um leitão chamuscado. Era tão cômico aquele momento, cabelos em pé, meio ardidos. Sobrancelhas sumiram rosto negro parecendo carvão e claro que alguma pequena queimadura pelo rosto e corpo teve pena dele e do que ele ia escutar da minha mãe e do meu pai, além das queimaduras ainda ia sentir as palmadas pesadas do meu pai.

Bem podem imaginar como ele foi bonito à sua primeira comunhão, foi uma festa e tanto, foram tios e primos e um dia que jamais poderei esquecer.

Logo regressei á minha casa, aquela que acolheu e viu crescer, para alegria de todos e as minhas saudades já estavam sendo demais entre lagrimas escondidas dos meus pais e dos meus irmãos para nãos os magoar. 


Publicado por Betimartins em 04/03/2011 às 13h49
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18/02/2011 15h58
Recordações de uma menina


Recordações de uma menina



 



Parte - 1



 



Procurei sem descanso, quis entender, conhecer e viver o amor. Desde menina, foi uma procura desgastante, talvez por ter sido emprestada aos meus amados tios, que ensinaram de uma forma intensa o amor, um tipo de amor que só quem o vive pode descrever.



Era ainda um bebê segundo eu sei, eu teria dezoito meses de vida, meu pai teve um acidente gravíssimo e minha mãe teve que o acompanhar no hospital e não restou outra forma que levar seus filhos aos padrinhos, que já eram três na altura.



Eu era a  mais nova dos três filhos, muitos dizem não ser possível terem lembranças de tenra idade e eu tenho algumas, vagas mas muito nítidas, a primeira de estar num cesto de palhinha onde estava a Emilia a nova empregada da casa, sempre me levava comigo.



Lembro de minha Tia Mimi, passar por onde eu estava e fazer uma festa, mas logo retirar a chupeta e eu ficar triste com isso. Segundo a minha terceira mãe a Emilia ela ia à mercearia escondido e pegava em outra chupeta e dava escondido.



Logo senti a que era diferente dos outros, meus pais escolheram meus irmãos e eu fiquei ali, nessas lembranças eu recordo ter cerca de 4 anos e estarem meus pais para irem embora de me visitar e eu ficar a chorar por não me levarem, nunca mais esqueci esse momento na minha vida.



Claro que ali eu não estava a entender o que era mais importante o amor dos meus pais, era tão presente, que o transformei em verdadeira repulsa e negação. Não tratava minha mãe por mãe, sentia que era uma estranha, era com ela que mais me revoltei. Cresci convivendo com eles, mas cada dia menos, eu amava os meus irmãos, achava lindo, os ver a brincar, ver a sua união e alegria que pairava a sua volta. Às vezes abafava os berros de minha mãe, que eram por demais, faziam ter saudades de minha casa aquela que me viu crescer.



Por vezes ninguém sabe o dano que faz a duvida que se coloca no coração de quem um dia sentiu abandonado por aqueles que mais deviam amar e proteger. Lembro que cresci sempre com medo, medo que mandassem embora, porque eu fiz algo errado ou por alguma outra razão se cansem de mim. Crescia dentro de mim a duvida, a revolta e por vezes no silencio do meu quarto eu perguntava, onde estaria Deus e porque cargas de água ele deixou acontecer aquele acidente.



Deus sabia e muito bem, tudo estava escrito no livro da vida, mas era ainda menina e não podia entender e por conseqüência cresci sem nada me faltar, mas faltava tudo, as respostas e a verdade.



Ainda me lembro da minha escola, aquela escola com paredes em granito e pintada de branco, um lado os meninos e outro lado as meninas. Recordo com nostalgia os recreios, aqueles recreios onde podia extravasar e ser eu. Digo ser eu, pois era muito bem comportada, mas tinha outra parte que era aventureira e gostava de ir alem do que me era traçado, mas o medo bloqueava por completo, impondo limites a minha vontade e imaginação.



Lembro da minha professora, Dona Ester, uma professora boa, ensinava sem ser no espancamento, e partilhava os problemas dos meninos, fazendo que todos fossem fraternos uns com os outros. Lembro da Primavera, das roupas mais frescas que deixavam correr e brincar, dos nossos lanches coletivos.



Os Natais, como eram belos os Natais, os trabalhos que fazíamos na escola, para decorá-la, pois era só ali que alguns meninos sentiram o espírito do Natal. O frio entranhava pelo rosto, às vezes fazíamos de conta que o ar que saia da nossa boca é um cigarro e fazíamos conta que era um concurso do quem o conseguia fazer mais longe.



O cheiro era intenso e único, por vezes, permanecia ali observar da minha janela as chaminés a deitarem o fumo e imaginava a vida ali como seria. O cheiro a madeira queimada pairava pelo ar e os doces eram deliciosos, a canela, o cheiro a fritos doces e o mel.



Recordo com intensidade a minha descoberta macabra sobre o Pai Natal é que eu acreditava piamente nele e descobri um dia escondido um belo embrulho na parte falsa da secretaria do meu Padrinho. Claro que sem dar nas vistas a noite eu foi lá verificar o que era aquilo, abanei e escutei o tilintar de muitas peças uma caixa ainda significativa, com um papel lindo vermelho e alegórico ao Pai Natal. Descolo com muita paciência uma parte e olho e vejo que era uma caixa de Legos para menina.



Depressa chegou o dia e descobri que aquele era o embrulho escondido, não sei se chorei, mas tive muita vontade de chorar sim, ninguém entendia a tristeza, mas eu queria acreditar na magia do Natal e desfizeram-me os sonhos ali.



  



Publicado por Betimartins em 18/02/2011 às 15h58
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29/01/2011 10h14
Diário da minha vida – Parte um
Diário da minha vida – Parte um
 
Minha vida é um faz de conta encantado, onde eu fui menina bem pequenina entre lembranças, birras, choros e gargalhadas.
Correndo entre os passeios do jardim da minha amada casa, lembro do balouço branco abanando com o vento, aquela menina sentada na cadeira de ferro, com o livro sobre a mesa, sentindo-se a dona do mundo.
Lembro do dia em que fiz a minha comunhão na candura do meu vestido minha alma estava confusa sobre o medo entre o gélido frio que sentia por medo de errar em algo.
Não entendi ali o magnífico momento e comunhão com Deus, coisas de criança distraída e teimosa.
Ainda lembro-me da casa, toda em pedra, pintada entre os desenhos da pedra em branco, as escadas onde eu alegre colocava as velas acesas para a procissão passar. Quanta vaidade eu sentia ali, naquele mágico momento, onde ninguém podia tocar só Deus e eu.
Lembro do jardim que mais tarde ajudava a cuidar, lembro das roseiras, do podar, regar, da exausta forma de tirar as ervas daninhas a sua volta. Eram as rosas mais belas em seu tom vermelho aveludado, nos presenteando com seu cheiro maravilhoso.
E as Primaveras, como eram belas as Primaveras, as flores desabrochavam e abriam deixando tudo repleto de pura beleza, os passarinhos vinham alegres fazer seus ninhos nas aves dos frutos, a tartaruga despertava do seu sono profundo e passeava entre canteiros e seu pequeno lago. .
Lembro-me de correr abraçando meu tio, mostrando as borboletas que por ali passavam, era tão belo, eram tão variadas, o céu azul, a brisa que por ali passava nos refrescando a alma, no silencio do mágico momento.
E as historia de vida e contos do cotidiano que meu amado avô contava debaixo da varanda, onde escutava feliz por estar ali, mas sempre em minha alegria e curiosidade eu pedia mais uma historia a que falava das bruxas na encruzilhada.
Sorrindo e com aquele rosto meigo e paciente, voltava a contar e contar e nunca me cansávamos de escutá-lo.
Um dia as nuvens vieram sobre a minha casa, com aquela escuridão levando aqueles que eu mais amava e tive que crescer e deixar de sonhar acordada.
Entre trovões e tempestades, entre lagrimas e desatinos, escolhas  eu cresci velozmente com o relógio do tempo sem nunca parar.
Quis duvidar do meu Deus, gritei com ele sem medo, impôs respostas e no meio da minha revolta por vezes devo ter o ofendido com arrependimentos constantes.
O Deus do meu coração perdoou, mostrou-me o amor, abençoou e eu caminhei de pazes feitas com ele, feliz.
Hoje voltei a minha casa antiga, a casa de onde eu fui menina, onde corri entre brincadeiras e gargalhadas e vi que nada restou dela a não ser o lugar mágico que ainda eu senti ali naquele momento.
Nem jardim, nem o balouço, nem as pedras são iguais, a água sumiu, presa a um poço escondido, parece um palácio, mas não é o meu palácio onde eu fui feliz na infância.
Caíram lagrimas de saudade, lembrando das historias que por lá passaram, lembrando de um casal que teve sonhos e os realizou no amor e na partilha da vida.
Esta é uma pequena parte do meu diário de vida.

Publicado por Betimartins em 29/01/2011 às 10h14
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